Entrevista

“PSD2 permitirá à Europa posicionar-se na vanguarda da inovação dos pagamentos”

Paulo Raposo, country manager da Mastercard Portugal

Em entrevista à SmartpaymentsNews, o respostas de Paulo Raposo, country manager da Mastercard em Portugal, fala sobre as inovações da marca e sobre as oportunidades da PSD2.

“Com a entrada em vigor da PSD2, as empresas e os consumidores vão poder aproveitar de forma abrangente e segura as inúmeras possibilidades decorrentes da transformação digital”, diz Paulo Raposo, country Manager da Mastercard em Portugal, em entrevista à SmartpaymentsNews.

Nesta entrevista assinala ainda o papel que as inovações introduzidas pela empresa tem vindo a introduzir podem ter neste processo de transformação digital dos pagamentos.

SmartpaymentsNews: Quais são as oportunidades resultantes da adopção da Diretiva PSD2?

Paulo Raposo: A Mastercard acredita que as mudanças na indústria de pagamentos, impulsionadas pela PSD2, terão um impacto verdadeiramente positivo, permitindo à Europa posicionar-se na vanguarda da inovação dos pagamentos, criando maior segurança e confiança e impulsionando novas oportunidades para negócios e pessoas.

Com a entrada em vigor da PSD2, as empresas e os consumidores vão poder aproveitar de forma abrangente e segura as inúmeras possibilidades decorrentes da transformação digital.

A nova legislação proporcionará maior segurança jurídica em áreas como a biometria ou os pagamentos conta a conta. A Mastercard acredita que este é um momento positivo e está naturalmente entusiasmada com oportunidades que a PSD2 vem proporcionar a um mercado de pagamentos europeu em permanente evolução.

E quais são os desafios?

P.R.: Para muitos, as mudanças instituídas pela PSD2 podem parecer, à primeira vista, o “Big Bang”. Mas, em muitos aspectos, tratam-se, afinal, de simples adaptações de regras já existentes às recentes inovações nas soluções de pagamento, actualmente mais rápidas, seguras e convenientes. No ambiente concorrencial, contudo, antecipam-se alterações e efeitos no médio prazo.

Por exemplo, as novas regras da PSD2 sobre “Open Banking”, que permitem aos consumidores dar a entidades terceiras o acesso a informações das suas contas bancárias, contribuem para um setor de pagamentos cada vez mais dinâmico e competitivo – onde bancos, prestadores de serviços de pagamentos e entidades terceiras cooperarão e competirão para oferecer novos serviços ao mercado.

Perante esta nova realidade é essencial a implementação de tecnologia de segurança e protecção mais robusta, que permita o desenvolvimento das interações de “Open Banking” entre bancos e entidades terceiras. A PSD2 exige uma autenticação forte dos clientes para todas as transações eletrónicas, consubstanciando-se num grande desafio, mas também numa grande oportunidade para os bancos.

Assim, independentemente das mudanças ou da evolução tecnológica, é fundamental que o setor de pagamentos possa oferecer opções de pagamento simples, convenientes e seguras que correspondam às expectativas dos consumidores.

Nós, na Mastercard, estamos numa excelente posição porque temos trabalhado arduamente, ao longo dos últimos anos, com os bancos, comerciantes e parceiros para construirmos um ecossistema de “Open Banking” integrado e seguro.

Assim, independentemente das mudanças ou da evolução tecnológica, é fundamental que o setor de pagamentos possa oferecer opções de pagamento simples, convenientes e seguras que correspondam às expectativas dos consumidores. Este é um objetivo central a ter em mente, independentemente do canal de pagamento que se utiliza.

Que tecnologias/inovações podem contribuir para a mudança no mercado dos pagamentos. De que modo cada uma dessas tecnologias pode contribuir para a transformação do sector?

P.R.: A Mastercard organizou, em Lisboa, o Mastercard Innovation Forum (MIF), dedicado ao tema “Empowering you in the digital economy”. Aí apresentámos as mais recentes novidades tecnológicas para o sector dos pagamentos.

De entre as principais novidades, demos especial atenção à IoT (Internet of Things), uma tecnologia que está a dar nova vida a pulseiras, anéis ou porta-chaves tornando-os ainda mais indispensáveis para o nosso dia-a-dia. Aliás, graças à IoT, todos os equipamentos podem estar ligados à Internet. Isso, para a Mastercard significa mais equipamentos capazes de fazer compras e de as pagar.

Mas é preciso construir soluções mais simples e seguras, mais intuitivas e centradas no cliente, para que a experiência de compra não tenha atritos e decorra com naturalidade. Ou seja, sem passwords e sem códigos.

Os consumidores estão cansados das passwords e querem viver uma nova experiência, mais agradável e facilitada.

Na verdade, os consumidores estão cansados das passwords e querem viver uma nova experiência, mais agradável e facilitada. E a boa notícia é que, dentro de pouco tempo, poderá haver um acordo no seio da indústria global de pagamentos para a criação de um standard para os pagamentos por token em toda a Internet.

O token é um novo patamar de segurança que vai permitir que, em cada compra, deixe de ser necessário digitar um código ou inserir uma password. Bastará, a par do token, a validação feita através de um dado biométrico, como a impressão digital, o reconhecimento facial ou a leitura da íris, por exemplo. O objectivo é que a experiência de compra seja segura e decorra sem obstáculos.

Quais foram as inovações apresentadas em matéria de segurança e dos pagamentos digitais, mobilidade, inteligência artificial, realidade virtual e comércio?

P.R.: Das novidades que apresentámos no MIF, destaco o Cartão Biométrico, que combina a tecnologia “chip” com um sensor para leitura da impressão digital, semelhante à utilizada nos smartphones e que pode ser aplicada em todos os terminais de pagamento existentes no mundo.

A informação biométrica fica embebida no cartão e em momento algum pode ser extraída desse cartão, a não ser pelo seu detentor, no momento de pagar. É um processo de autenticação forte que substitui o PIN ou a assinatura.

Uma vez que o processamento dessa informação se passa exclusivamente no cartão, os comerciantes não precisam de suportes ou requisitos adicionais para efectivarem a compra. Um dos resultados mais importantes desta tecnologia, é que os comerciantes reduzem o número de transacções falsas ou recusadas por esquecimento do PIN.

Destaco, também, o M4M, um programa para comerciantes e lojas online, no âmbito do MDES (Mastercard Digital Enablement Service). Trata-se de um serviço para tornar mais seguro e mais rápido o checkout das compras online, através de um token criado especificamente pelo utilizador para uma determinada loja e que só funciona entre esse utilizador e essa loja. Ou seja, no caso da informação no site ficar comprometida, o token não poderá ser nem reutilizado nessa loja, nem utilizado para outros fins, noutras lojas.

Também tivemos expostos alguns Wearables e demonstrámos como pagar com uma jóia, um anel, um relógio ou uma pulseira de fitness. Isto já é uma realidade e uma tendência que no futuro ganhará cada vez mais adeptos, com as estimativas a apontarem para mais de 50 mil milhões de dispositivos inteligentes até 2020, o que representa uma expansão massiva de dispositivos em que os pagamentos poderão ser activados. As funcionalidades de pagamento seguro podem ser adicionadas através da plataforma de tokenização MDES aos acessórios que os consumidores já estão a usar, incluindo pulseiras de ginástica, joias, roupas, relógios.

Tivemos, ainda um Espelho Inteligente, uma das inovações mais interessantes, sobretudo para o comércio. É espelho touch-screen interativo desenvolvido pela Mastercard, que proporciona uma experiência de compra multissensorial. Este equipamento recorre a tecnologia RFID (identificação por radiofrequência) e que possibilitará, a breve trecho, que os consumidores possam escolher e pagar as suas peças de vestuário a partir dos espelhos instalados nas lojas ou em showrooms. O espelho, além de reconhecer os produtos que entram no provador, criando um carrinho de compras virtual, também recomenda outros produtos à venda na loja e que podem corresponder às escolhas que o consumidor já levou para o provador, permitindo ainda chamar um assistente, escolher a iluminação, ou selecionar outros tamanhos e cores.

Qual poderá ser o contributo destas inovações para a transformação do sector?

P.R.: No limite, e numa visão mais alargada no tempo, vamos conseguir virtualizar, literalmente, tudo o que temos hoje na carteira. O conceito de termos uma carta de condução em plástico, por exemplo, começa a ser anacrónico, porque os dados que estão registados nesse documento estão guardados num servidor, o que significa que podemos ter essas mesmas credenciais acessíveis a partir do telemóvel. E num controlo pela autoridade, basta existir um leitor biométrico para leitura da impressão digital para confirmar que sou eu o verdadeiro dono daquelas credenciais.

Hoje, isto pode parecer bastante invasivo, mas a prazo tudo isto vai ser possível e, diria, até banal. O que é fundamental para os consumidores é não cairmos numa situação em que continuamos a pôr os cartões na rua e a dar a sensação à pessoa que as suas credenciais estão ali, na sua posse, no seu bolso e que depois nada mais existe.

Porque, na verdade, o nosso cartão do cidadão, por exemplo, tem um conjunto de capacidades e de informação que vai muito para além do cartão em si. Logo, com os pagamentos e os cartões de débito e crédito, tal como os conhecemos, vai ser a mesma coisa. Não falta muito tempo, e isto não é ficção científica, para não precisarmos de carteira. Basta-nos um dispositivo como um anel, um colar ou uma pulseira para sairmos de casa. Há tecnologia para o fazer, grande parte dela, oriunda do IoT. Por exemplo, os cartões Contactless, são a prova disso mesmo.

Claro que a adopção destas tecnologias faz-se com base na generalização da sua utilização, obviamente, mas faz-se, também, com a necessária educação e sensibilização. Desde logo, para dirimir alguns preconceitos ligados à privacidade, por parecer uma tecnologia demasiado disruptiva. Tendencialmente, receamos e rejeitamos aquilo que não conhecemos ou não entendemos. Por isso, este tem de ser um processo gradativo. Vamos ter um mundo sem cartões? Claramente. Não sei quando, mas vamos. Porque também vamos ter uma sociedade sem dinheiro físico, sem numerário. Está a aumentar o número de países que estão a adoptar progressivamente os pagamentos electrónicos em detrimento dos pagamentos em numerário, pelo que é apenas uma questão de tempo para deixarmos de precisar de dinheiro e de cartões. A Mastercard tem um moto que é “A World Beyond Cash”, mas não me custa nada dizer que será um mundo “Beyond Card” em que tudo estará virtualizado.

Como se posiciona Portugal face a outros países em matéria de novos métodos de pagamentos? 

P.R.: Há uma grande evolução em passar do numerário para transações eletrónicas. No nosso país, por exemplo, de acordo com os dados do Banco de Portugal, apenas cerca de 30% das transações são feitas através de meios digitais.

Esta realidade contrasta com o facto de cada português ter, em média, 3 cartões bancários, dois de débito e um de crédito (dados do Banco de Portugal, de agosto de 2018). É verdade que nós demos passos de gigante a partir da década de 80 do século passado, na adoção de soluções electrónicas de pagamento, mas tem ainda um longo caminho a percorrer na migração para o digital.

Por um lado, porque ainda há um trabalho muito importante a fazer ao nível da sensibilização de consumidores e comerciantes. Por outro, porque é necessário evoluir a arquitetura do modelo de pagamentos em Portugal, que pode em alguns aspetos ser entendida como um entrave à inovação e à sã concorrência entre operadores, peça fundamental na construção de uma sociedade cada vez mais cashless, ou seja, em que os pagamentos em dinheiro sejam substituídos, definitivamente, por pagamentos digitais

Um bom exemplo que ilustra o que acabo de dizer está patente na evolução da utilização da tecnologia Contacless na Europa, quando comparada com Portugal. Há países na Europa em que as transacções Contactless aumentaram 97% e na maioria dos países uma em cada duas transacções em loja já são Contactless. E outro sector onde este crescimento na Europa também é assinalável é nos transportes públicos. É que no resto da Europa, basta ter um cartão Contactless para podermos pagar o bilhete. Em Portugal ainda temos de fazer o caminho das pedras, de ir para uma máquina comprar um bilhete “contactless”.

Podemos, também, recordar as declarações feitas recentemente em Lisboa por um representante do Banco Central Europeu. Dizia este representante que, em Portugal, temos de pensar fora da caixa e que, apesar de os portugueses serem grandes inovadores e early adopters, como país pequeno que somos temos de pensar nos milhares de turistas que vêm a Portugal. Isto, porque temos uma solução de pagamentos baseada num protocolo doméstico que impede um turista, por exemplo, de conseguir pagar com o seu cartão de débito ou crédito o bilhete de metro nas máquinas e, por isso, tem de ir para a fila do posto de atendimento do Metropolitano (veja-se o que se passou durante a Websummit, com as intermináveis filas nas estações de Metro).