desmaterializar

Desmaterialização dos pagamentos é o caminho

São o provider único das principais infraestruturas de pagamento em Portugal o que lhes tem permitido (e ao País) assumir uma posição entre os primeiros, no que diz respeito ao desenvolvimento e inovação nos meios de pagamento.

A SIBS pode até ser mais conhecida pela “sua” rede multibanco e a abrangência que esta tem em todo o País, mas outros são agora os projetos que tem entre mãos. Depois do MB Net, o MB Way é o mais recente exemplo do trabalho que tem sido desenvolvido pela empresa no âmbito dos pagamentos digitais, permitindo agora pagamentos móveis via sistema bancário.

Em entrevista ao Smartpayments.com, Teresa Mesquita, diretora do Departamento de Gestão de Produto da SIBS, falou do sucesso que se tem revelado o MB Way e defendeu a desmaterialização dos pagamentos como o único caminho a seguir no longo prazo.

A SIBS está a trabalhar nisso mesmo também do lado dos comerciantes ao assegurar o desenvolvimento de uma nova gateway de pagamentos; outro projeto entre mãos diz respeito à capacidade de transferência imediata de dinheiro para diferentes países.

Smartpaymentsnews.com – A SIBS é o provider de pagamentos em Portugal…

Teresa Mesquita – Desde a criação, quer pela nossa via acionista quer pela nossa natureza, temos sido o provider das principais infraestruturas de pagamento com uma relação muito próxima tanto com o setor bancário como com o próprio Banco de Portugal; até mesmo os processos que, por vezes são menos visíveis, são processados pela SIBS.

Do que fala exatamente?

T.M. –  Falo da infraestrutura core de pagamentos em Portugal e de outros menos visíveis como as transferências, os débitos diretos, etc, que são tudo sistemas que nós operamos com as exigências de fiabilidade e segurança que têm.

Temos, de facto, uma abrangência muito grande em termos de serviços desde a rede multibanco com as suas caixas automáticas ou os terminais que estão nos comerciantes, como depois nesta componente mais de infraestruturas de pagamento que disponibilizamos desde há muitos anos.

Em termos de meios de pagamentos, a realidade tem vindo a mudar. Como vê esta evolução?

T.M. – De facto os meios de pagamento têm vindo a acelerar. A SIBS nasceu para os meios de pagamento eletrónicos e digitais e desde há 30 anos que processamos pagamentos digitais, sempre desmaterializados, desde as compras até todas as operações que são feitas na caixa automática, Via Verde, etc.

Obviamente que nos últimos tempos temos vindo a assistir a uma aceleração do ritmo de desenvolvimento destas novas tecnologias – evolui-se mais rapidamente – e também a ver um conjunto de novas tecnologias que têm vindo a desafiar a forma como se paga. Isto é muito fomentado pela inovação, mas também pelo consumidor que tem expectativas cada vez mais exigentes relativamente à conveniência da forma de pagamento. Já não se consome apenas no mundo físico; ora, naturalmente, a forma como pagamos também tem de se ir adaptando ao mundo mais digital em que estamos e o desafio que atualmente temos e no qual temos vindo a trabalhar é muito focado nesta área.

Como assim?

T.M. – Os grandes projetos que temos em curso são todos muito focados nesta área dos pagamentos digitais; a ideia é precisamente facilitar cada vez mais estes pagamentos num contexto digital; poder saltar da loja para ambientes online, mas também assegurar uma melhoria da experiência na própria loja.

A verdade é que comprar na loja, hoje em dia, é mais digital porque já levamos o smartphone para a loja, já consultámos antes em casa e comparámos tudo o que tínhamos disponível e quando vamos à loja já é com o intuito de fazer uma determinada compra; no entanto, se tivermos ali alguém que nos atenda no momento e que possa no momento também fazer o pagamento ou procurar o stock então podemos já não comprar online. Os dois mundos acabam por se misturar.

 

O projeto MB Way

 

E o MB Way é um primeiro passo nesse campo?

T.M. – Sem duvida que sim. O MB Way foi a forma de trazer o cartão multibanco para o digital, de disponibilizar o cartão que habitualmente temos na carteira, mas agora num smartphone e fazê-lo com valor acrescentado e com novas funcionalidades que não estavam disponíveis no tradicional formato cartão.

O que pretendemos é que o MB Way enderece todas as nossas necessidades em termos de pagamentos digitais, quer seja fazer compras ou transferir dinheiro para pessoas e a forma como o tentámos fazer foi trazendo valor acrescentado. Na realidade, acreditamos que uma simples “substituição do cartão” não é o que se pretende.

Acredita que não funcionaria só por si?

T.M. – A verdade é que o cartão funciona e de uma forma eficiente; a sua utilização é algo que também está muito entranhada nos nossos hábitos. Só que, depois, quando chegamos a estas novas aplicações de mobilidade e transportes em que, de facto, podemos sair do táxi e imediatamente este fica pago; ou em que vamos para uma experiência de compra um bocadinho diferente, comprando no meio da loja sem ter de passar pelo tradicional check-out, todo este tipo de experiências acabam por acrescentar valor. E há aqui um grande espaço para desmaterializar o mais possível o cartão, tornando simples e conveniente o método de pagamento.

Mas, por exemplo, o contactless é uma inovação ainda pouco disseminada e que não convenceu os consumidores….

T.M. – Sim, mas acredito que é mais uma questão de hábito porque depois de se começar a usar é, de facto, muito conveniente; depois de ultrapassarmos a barreira da mudança, percebemos que traz valor acrescentado.

O contactless para montantes mais elevados tem PIN, para montantes mais baixos não tem PIN, mas isso é a mesma coisa que andarmos com dinheiro na carteira; aqui o que se procura sempre é este correto balanço entre a conveniência e a segurança que é fundamental.

E atenção que, em matéria de adesão, nós não somos caso único neste campo; há outros casos onde acontece algo semelhante; em que o contactless arrancou apenas nos transportes, por exemplo, ou em sectores de atividade mais específicos e de conveniência deste tipo de utilização.

De volta ao MB Way, foi um projeto vosso?

T.M. – O projeto foi totalmente desenvolvido pela SIBS com os bancos emissores dos cartões que é quem posiciona o produto e quem presta o serviço diretamente ao utilizador com tecnologia da SIBS.

Qual a adesão dos portugueses?

T.M. – O MB Way tem tido uma adesão boa dos portugueses e tem superado um pouco as nossas expectativas. Já contamos com 115 mil aderentes ao serviço sendo que cada pessoa tem, em média, 1 cartão e meio colocado no MB Way. Portanto, face ao período de tempo que tem, está em linha com as nossas expectativas e achamos que o feedback que vamos recebendo de quem já utilizou é, de facto, fantástico.

Depois de experimentarem e perceberem o valor acrescentado que tem, aderem e gostam e começamos a ter já utilizadores recorrentes. Achamos que é a aposta de futuro que estamos a fazer não só na componente de compras como também na de transferências.

Transferências via MB Way?

T.M. – Sim. Todos os emissores já concluíram os seus processos de adaptação ao sistema e neste momento já é possível transferir praticamente para qualquer ponto de Portugal; tivemos aqui um período de preparação em que nem todas as contas podiam ser atingidas. Atualmente, já podem e achamos que vamos começar a ver mais utilização em termos das transferências porque, de facto, trazem um valor acrescentado grande já que o dinheiro fica imediatamente disponível na conta e a operação é muito simples de fazer.

Como funciona?

T.M. – Na aplicação, basta introduzir o numero de telemóvel de quem vai receber o dinheiro e nem é preciso conhecer os seus dados financeiros. Se a pessoa para quem vamos transferir ainda não for aderente, recebe um SMS e é convidada a aderir, recebendo os fundos depois de concluir a adesão.

 

Portugueses são um povo tecnológico

 

Os portugueses são um povo que usa muito os cartões, usa muito os smartphones e a tecnologia de uma maneira geral. Isso são mais-valias a ajudar à aplicação?

T.M. – Somos de facto um país com boa penetração na utilização de cartões e o smartphone também tem uma adoção muito grande. Resistimos ainda no campo das aplicações financeiras como o mobile banking em que, comparando diretamente com outros mercados, estamos um pouco atrás. Há mercados onde a utilização do mobile banking já ultrapassou a utilização da banca online, por exemplo, nos mercados nórdicos. Nos mercados do Sul e, particularmente, em Portugal acreditamos que isso é uma questão apenas de tempo e que as próximas gerações vão acabar por aderir.

De que forma o MB Way pode incorporar, por exemplo, o conceito dos wearables?

T.M. – A partir do momento em que temos o contactless não é necessário que o chip esteja no cartão, ele pode estar em qualquer tipo de wearable, ou até mesmo de IoT (também se fala muito de o nosso frigorifico encomendar a refeição e “pagar”).

Claro que ainda estamos muito numa fase de early adopters e nem toda a gente sente essa necessidade e está disponível para pagar o preço que a tecnologia ainda tem, mas isso vai acabar por acontecer.

De resto, a própria desmaterialização do cartão é algo que a SIBS já tem há muito tempo e acreditamos que é o caminho; cada vez mais o pagamento está desmaterializado e o cartão existe apenas virtualmente. A forma de fazer as operações e as compras será mais por via de NFC ou outro tipo de tecnologia como a tokenização.

E há já novidades para o MB Way? Alguma coisa programada?

T.M. – No MB Way estamos sempre a melhorar em termos de usabilidade e a fazer pequenos melhoramentos necessários. Mas o que vamos agora disponibilizar no seu âmbito é uma aplicação que permite que o comerciante dê ao seu cliente uma experiência mais integrada para endereçar o mercado, que cada vez é maior, do comércio mobile.

Trata-se de estar na aplicação do comerciante, fazer as compras e os pagamentos nessa aplicação, mas, por detrás de tudo aquilo está a aplicação da SIBS e o cliente nunca deixa dados pessoais na aplicação do comerciante. É tudo totalmente seguro.

E estão também a trabalhar numa gateway de pagamentos…

T.M. – Sim, esta nova gateway está muito focada no conceito de serviço ao comerciante através dos aquirers que trabalham connosco e a partir da nossa tecnologia.

O que vai permitir é que um comerciante, com uma única ligação técnica, possa ter acesso a vários métodos de pagamento, seja ele o cartão, o pagamento de serviços, seja o próprio MB Way, e tudo para pagar online.

Já no campo dos pagamentos instantâneos, quais são as novidades?

T.M. – Isso é algo que está a ser bastante falado ao nível da Europa e do mundo. No fundo, trata-se de ter sistemas de transferências instantâneos. Como sabemos, atualmente, o dinheiro fica tipicamente disponível no dia seguinte. No MB Way já o fazemos de forma instantâneo em Portugal e somos o primeiro País na Europa que implantou isto a nível nacional; há vários sistemas fechados que o fazem em termo de wallets e dentro do próprio ecossistema, mas a SIBS foi a primeira a nível europeu que lançou, com base no cartão multibanco, um sistema em que o dinheiro fica logo disponível na conta e a transferência é feita apenas com numero de telemóvel.

Agora estamos a implementar também uma infraestrutura de pagamentos instantâneos. Neste campo, há um projeto europeu que está a ser incentivado pelo Banco Central Europeu para que os países se prepararem para este tipo de sistemas de pagamento instantâneos e nós, na SIBS, somos um dos prestadores que está a trabalhar nessa área.

Portugal tem aqui um papel de destaque no âmbito dos pagamentos. Acredita que o facto de termos uma entidade única – como é o caso da SIBS – ajuda nesta área?

T.M. – Sem duvida, até porque à escala europeia nós somos muito pequenos e estes sistemas são complexos e caros. Portanto, a SIBS tem permitido criar um fator de escala importante.

Falámos muito na desmaterialização. Acredita que o futuro passa, inevitavelmente, por aí? Pelo fim do dinheiro, do papel?

T.M. – Há países que já estão a discutir isso, se o dinheiro pode ou não ser eliminado e há quem defenda, nesses países, que o dinheiro deve ser um direito do cidadão. Eu acho que o caminho é, sem duvida, por aí. Na generalidade dos países ganha-se muito em ter o dinheiro digital até porque o custo do cash é muito maior do que o custo dos meios de pagamento eletrónicos.

De resto, é mais conveniente do que andar com dinheiro na carteira e com uma série de trocos.

E a SIBS está preparada para isso?

T.M. – Sim. Embora, em termos de bitcoin especificamente, para já, não temos planos para isso. Achamos que são experiências tecnológicas interessantes, mas não sabemos se daqui a uns anos a tecnologia do blockchain não vai ser um enabler para ganhar mais eficiência nos pagamentos em geral.

Portanto são áreas às quais estamos atentos e que estamos a estudar, mas não temos, neste momento, planos ou projetos fechados neste campo. Agora desmaterializar é sem duvida o caminho, digital é sem duvida o caminho, com que tipo de tecnologia será? Ainda não sabemos.