SmartPayments Congress

Para onde caminha o setor dos pagamentos?

Foi no passado dia 22 de outubro que se realizou mais uma edição do SmartPayments Congress. Durante cerca de oito horas estiveram em debate as mais recentes tendências do setor dos meios de pagamento e da inovação bancária numa edição presencial e digital que reuniu mais de uma centena de participantes. Saiba tudo o que esteve em debate.
Foi no passado dia 22 de outubro que se realizou mais uma edição do SmartPayments Congress. Durante cerca de oito horas estiveram em debate as mais recentes tendências do setor dos meios de pagamento e da inovação bancária numa edição presencial e digital que reuniu mais de uma centena de participantes. Saiba tudo o que esteve em debate.

Um futuro sem dinheiro físico
Na edição deste ano, o SmartPayments Congress arrancou com uma mesa redonda dedicada ao tema “Transição para uma sociedade cashless: o que nos reserva o futuro?”. Com a moderação a cargo de Duarte Libano Monteiro, Chairman of the General Meeting da AFIP – Associação FinTech e InsurTech Portugal, Rita Lourenço, Diretora Coordenadora do Banco Millennium BCP, Joana Cardoso, Head of Payments Product Management da Cofidis, e Nuno Fernandes, Head of Marketing da Zomato Portugal, debateram o futuro dos meios de pagamento.

Rita Lourenço, Diretora Coordenadora no Banco Millennium BCP, começou por recordar que a pandemia trouxe “alterações fundamentais” ao setor, nomeadamente a perceção de que os pagamentos “sem fisicalidade” são “uma absoluta necessidade”.

“A evidência de se pagar digitalmente tornou-se isso mesmo, evidente. A pandemia acelerou os pagamentos digitais, uma coisa que andávamos a doutrinar há muitos anos e não víamos. As nossas taxas de contactless, comparativamente ao resto da Europa, eram muito baixas. Acontece o mesmo com o e-commerce. O que se verificou durante este tempo é que as pessoas perderam o medo de fazer compras na net. Hoje em dia qualquer comerciante, que tenha a coragem de abrir uma loja, já mete na sua checklist a hipótese de vender remotamente. Sim, a pandemia deu um boost à desmaterialização da sociedade, mas para chegarmos a uma sociedade cashless vai demorar um bocadinho”, defendeu ainda Rita Lourenço.

Já Joana Cardoso, Head of Payments Product Management na Cofidis, sublinhou que “neste momento, falar em cardless é como falar em cashless. Esta aceleração veio mostrar que precisamos de entender qual a real necessidade da utilização de todos os meios da indústria. Mais do que a tecnologia estar pronta, é preciso perceber quais as necessidades de quem usa as tecnologias. Tecnologicamente são anos de desenvolvimento de soluções, mas não acredito que a curto prazo vivamos numa sociedade cardless. É mesmo preciso perceber as necessidades dos utilizadores e dos comerciantes. Por outro lado, é preciso pensarmos na inclusão. Não podemos pensar que agora somos todos muito tecnológicos e que todos usamos as soluções da mesma forma. Não podemos pensar que agora a solução é sermos 100% digitais. Temos de investir naquilo que vai solucionar os problemas das pessoas.”

Nuno Fernandes, Head of Marketing da Zomato Portugal, por sua vez, trouxe a experiência de centenas de restaurantes nacionais que durante o estado de emergência tiveram de procurar soluções para continuar a operar.

“Neste momento a maioria dos restaurantes estão a vender online, mesmo que não tenha uma plataforma própria. Há muita educação que tem de ser feita e parte das entidades explicar e tornar as coisas mais claras. Perceber como funciona a transação dá mais segurança aos utilizadores. Acredito que só conseguimos educar o mercado e ter uma penetração maior se juntos arriscarmos fazer algumas parcerias que antigamente não fariam sentido para o mercado. Só assim conseguimos um modelo mais inclusivo”, afirmou Nuno Fernandes.

Logo de seguida, o SmartPayments Congress recebeu Ricardo Macieira, country manager da Revolut em Portugal, que além de partilhar com a audiência a trajetória de crescimento da fintech contou como se podem explorar as mudanças provocadas pelas instituições de moeda eletrónica.

O country manager na Revolut lembrou que a empresa não tenciona estar à margem do sistema, mas sim no seu centro e afirmou que a inovação trazida pela companhia para o mercado impõe novas formas de estar ao setor dos meios de pagamento.

“Queremos ser uma equipa de high performers em que todos os nossos membros dão o seu melhor e exigem o melhor dos seus companheiros. Temos uma missão de «never settle» e queremos pessoas que consigam quebrar barreiras”, referiu.

Ricardo Macieira reforçou ainda que Portugal está quase sempre na linha da frente na adoção de inovação e que é um dos mercados mais interessantes para a Revolut. “Portugal é um case study muito interessante. Neste momento temos cerca de 600 mil utilizadores em Portugal, um País com 10 milhões de habitantes. Espanha tem cerca de 700 mil…A adesão em Portugal é altíssima e se falarmos com outras startups, como a Uber ou a AirBnB, vão dizer o mesmo. A adoção é muito alta, mesmo com algumas das limitações que existem no mercado português. Isto para mim quer dizer que o utilizador quer a mudança, está disposto a adaptar-se mesmo que o ecossistema não esteja e isso vai exigir que o ecossistema se adapte”, concluiu.

Regulamentação e Cibersegurança
Durante a manhã houve ainda espaço para falar de regulamentação e cibersegurança, com Alan Littler, gaming lawyer na The Gaming Practice at Kalff Katz & Franssen Attorneys at Law a abordar o tema da regulação de jogos de azar online, e Ricardo Domingues, vice-presidente da APAJO – Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online, a explicar como se podem bloquear  pagamentos em atividades ilícitas online.

De acordo com Ricardo Domingues, vice-presidente da APAJO – Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online, “o bloqueio de pagamentos aos sites ilegais não tem de representar um corte. Na realidade, esse corte significa que uma boa parte desse volume de negócios migre para o mercado legal (…) Estamos cientes de que os operadores ilegais são muito criativos a esconder os próprios fluxos financeiros ao ponto de criarem negócios falsos, por isso, não há uma solução 100% eficaz. Mas podemos, por exemplo, começar por promover um negócio de jogo rotulado com certificado concedido por entidades financeiras portuguesas e configurar alguns sistemas de monitorização adicionais para detetar transferências de dinheiro ocultas.”

Já Hélder Rosalino, administrador do Banco de Portugal, subiu ao palco para debater a regulação e supervisão da tecnologia na sua atuação no setor financeiro, apresentando a forma como as autoridades nacionais e europeias se debruçam sobre RegTech e SupTech.

“A crise de 2008 resultou de desequilíbrios macroeconómicos. Parte das razões dessa crise estavam na deficiência da regulação e da supervisão, o que fez com que em meados de 2014, estes temas entrassem na agenda das entidades europeias e internacionais”, explicou.

O orador explicou que foi neste contexto que em 2015 surgiram os conceitos de Regtech e Suptech, com o objetivo de acompanhar o aumento das exigências regulatórias e de supervisão que se colocavam aos sistemas financeiros. Atualmente, as instituições financeiras têm vindo a suportar um esforço de resposta a uma regulação crescente em vários domínios e a uma supervisão mais intrusiva, o que criou desafios de resposta, quer às entidades reguladas, quer às entidades de supervisão.

“Temos assistido a uma disrupção e aceleração tecnológica no sistema financeiro. Os modelos de negócio estão a mudar e são agora suportados por quatro drivers: as expetativas dos consumidores, que são cada vez maiores pois estes querem cada vez mais as experiência digitais que recebem de outras áreas; os desenvolvimentos tecnológicos que são aceleradores dos modelos de negócio; a competição e a exigência regulatória com um quadro macroeconómico que tem assistido a um aumento de regulação em cima do sistema financeiro”, revelou o Administrador do Banco de Portugal.

Por seu lado Pedro Machado, Country Senior Director, DPO, do Grupo Ageas Portugal, começou por dizer que “no momento de crise económica em que nos encontramos está potenciada a motivação de ganhos financeiros através de ciberataques como é o caso do ransomware”.

De acordo com o orador, grande parte das empresas ainda acreditam que a maioria dos ataques são provenientes do interior da organização, contudo, a tendência tem vindo a diminuir.

“A tendência dos ataques internos tem vindo a diminuir desde 2015 e cerca de 80% dos ataques são atualmente de origem externa”, lembrou, referindo que é essencial as organizações estarem alerta no que toca à sensibilização e consciencialização para tudo aquilo que são eventos atípicos.

“O apetite pela realização de ciberataques em tempo de crise ganha especial dimensão. E quem pensa que os ataques vêm apenas de dentro das organizações, desengane-se. 80% dos ataques são de origem externa e 20% são internos, com uma tendência para crescer, o que acaba por demonstrar que é preciso estarmos atentos à sensibilização sobre tudo o que são eventos atípicos (…) Estamos continuamente em guerra com inimigos invisíveis e ser resiliente neste cenário é fundamental”, afirmou Pedro Machado.

All-in-One: mobilidade nos meios de pagamento
No painel dedicado à mobilidade nos meios de pagamento, Paula Antunes da Costa, country manager da Visa, revelou de que forma a tecnologia contactless está a abrir caminho para novos modelos de mobilidade e contou de que forma é que a empresa tem vindo a estabelecer parcerias com autoridades governamentais e privadas para apresentar novas soluções de mobilidade urbana sustentável.

“Assistimos a um crescimento dos pagamentos digitais e nos meses inicias da pandemia a Visa trabalhou com vários parceiros da indústria dos pagamentos para alterar os limites dos pagamentos contactless em vários países da Europa, uma alteração importante para a indústria e necessária para os consumidores. Esta alteração resultou em 500 milhões de transações com pagamentos contactless e hoje 75% dos pagamentos Visa em loja na Europa já são contactless (…) O contactless é essencial para começarmos a trazer de volta as pessoas para os transportes públicos. As vantagens das soluções contactless nos transportes são evidentes”, defendeu.

Durante a manhã houve ainda espaço para uma apresentação de Ana Catarina Silva, diretora de soluções da CaixaBank Payments & Consumer, que transportou a audiência para uma loja FNAC para conhecer o cartão de cliente desenvolvido pela organização, uma solução que é entregue na loja durante o ato de compra, com diversas modalidades de pagamento, tecnologia contactless e uma gestão 100% digital, e para uma apresentação de Susana Rubio, Digital Payments and Innovation Director da Mastercard, que defendeu que a tecnologia está do lado do consumidor para tornar os pagamentos mais seguros.

De acordo com a oradora, o consumidor procura cada vez mais rapidez no momento de pagamento e a solução 1-click payment da organização assegura simplicidade, conveniência, sustentabilidade e escalabilidade. “Não sabemos como vão ser os pagamentos no futuro, mas sabemos que temos a tecnologia para os tornar seguros”, defendeu Susana Rubio.

Já durante a tarde, o SmartPayments Congress encetou a jornada de debates com uma apresentação de Dario Coffetti, CEO do Oney Bank Portugal, que sublinhou que o foco da empresa está em cumprir com as expetativas do cliente, garantindo uma entrada na jornada cliente instantânea.

Coffetti assegurou ainda que a rapidez e a segurança são uma prioridade na escolha dos meios de pagamento e que “mais de 9 em cada 10 consumidores querem pagamentos seguros acima de tudo”.

Já João Girardi, Regional Managing Director da Castles Technology, revelou de que forma as tendências tecnológicas estão a impactar o setor dos pagamentos. De acordo com o orador, além de um consumidor em mudança, fatores como a regulação e o avanço da tecnologia estão a mudar consideravelmente o ecossistema dos pagamentos.

“Temos exemplos de empresas como a Amazon, que lançou recentemente um serviço inovador de pagamento que permite pagar com a palma da mão através de um scanner, que conseguem sempre liderar a inovação (…) Em tempos de covid, o contactless cresceu significativamente e espera-se que a sua adoção seja muito perto de 100% nos próximos anos”, referiu.

O poder das parcerias banca + fintechs
José Esperança, vice-presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia e professor do ISCTE, juntou-se ao evento para falar do impacto das fintechs no mercado e da forma como tecnologias como machine learning, inteligência artificial e blockchain podem revolucionar os pagamentos.

O vice-presidente da FCT recordou que Portugal tem assumido um papel de proa no setor, com empresas como Feedzai, Seedrs, Raize e Revolut a destacarem-se entre as mais inovadoras do mundo: “estamos expostos a um admirável mundo novo (…) Portugal, curiosamente, não é um País atrasado nesta área, muito pelo contrário. Há um potencial bastante significativo.”

Já para falar do impacto da tecnologia na indústria dos seguros, o SmartPayments Congress contou com João Paulo Matos, Coordenador do InsurTech WG da AFIP, que colocou a seguinte questão: o que trazem as fintechs à indústria e ao seu modelo de negócio?

Para o responsável, o aspeto mais importante não é o IT, mas sim “a alteração dos modelos de negócio. “A tecnologia não é o fundamental das soluções insurtech. As principais alterações em termos de modelo de negócio são, por exemplo, o facto de o seguro ter deixado de ser uma coisa que alguém paga para lhe cobrirem um prejuízo. Passou a ser uma solução win-win, em que por via da medição do risco envolvido, há possibilidade de ganho para a seguradora e para o próprio utilizador”, explicou.

Logo de seguida, a comunicação digital e o open banking são foram o centro da intervenção de Sérgio Santos, diretor central de banca digital do Banco BPI, que falou de três tendências para o futuro dos meios de pagamento: utilização diversa e transparente dos serviços financeiros, ecossistemas mais próximos e proximidade com a experiência final.

“O open banking ao permitir a integração dos serviços financeiros dentro de outras experiências, sejam de bancos ou de outros setores de mercado, traz oportunidades muito mais interessantes do ponto de vista do relacionamento com o cliente”, sublinhou.

“Para um banco universal, a luta pela experiência é hoje uma das prioridades. Obviamente há capacidade de juntar novas peças para tornar a experiência mais interessante (…) No BPI temos procurado estar à frente neste processo”, acrescentou ainda Sérgio Santos.

O SmartPayments Congress 2020 encerrou com um debate sobre o papel da tecnologia enquanto regulador e supervisor ao serviço da compliance. Moderado por Diana Basílio, head of digital client facing platforms no Banco BNI Europa, o debate contou com Rita Costa Waite, responsável de payments business development & innovation no Millennium bcp, Vitor Luís, diretor coordenador sistemas de informação do BiG – Banco de Investimento Global, e Pedro Conceição Silva, head of payments and selfbanking solutions no Banco Montepio, que abordaram o papel dos novos players na banca.

Para Vitor Luis, do BiG – Banco de Investimento Global, “os mecanismos tecnológicos de proteção de fraude vieram para ficar”. Já Pedro Conceição Silva, do Banco Montepio, lembrou o peso da regulação sobre a banca, afirmando que “os bancos não podem fazer desenvolvimentos que não sejam compliant.” Por sua vez Rita Costa Waite, do Millennium bcp, reforçou que os clientes querem hoje, mais do que nunca, experiências “simples, diretas e personalizadas” no contacto com a banca.

O SmartPayments Congress volta no próximo ano com todas as tendências do setor dos pagamentos.