Entrevista

Imburse propõe-se resolver problemas de integração

Oliver Werneyer, CEO da IMburse

Não somos uma gateway de pagamentos, diz Oliver Werneyer, CEO da IMburse. “Resolvemos problemas de integração de pagamentos nas grandes empresas”.

Oliver Werneyer é um dos quatro fundadores da Imburse, empresa, com sede em Zurique, na Suíça, escritórios naquela cidade e também no Reino Unido.

Em entrevista à SmartpaymentNews, o administrador-executivo da empresa, Oliver Werneyer, explicou o que faz a Imburse, para que mercados e em que países. A solução da empresa, explica o responsável, resolve um problema transversal às grandes organizações: integrar os métodos de pagamentos com os sistemas das empresas.

SmartPaymentsNews –  A que se dedica a Imburse?

Oliver Werneyer – Ajudamos grandes companhias a aceder ao ecossistema dos pagamentos. Não é que não haja suficiente tecnologia de pagamentos no mercado. Há muita tecnologia e ótima. O problema para grandes empresas – como seguradoras, bancos, utilities, transportes públicos – é a conexão. Têm muitas tecnologias para integrar e cada integração pode levar 15 a 20 meses, e custar centenas de milhar de euros. Por tudo isto, para essas empresas, por vezes não é sequer possível experimentar ou testar essas tecnologias.

A Imburse resolveu esse problema de integração. Não sendo uma empresa de pagamentos, é mais fácil trabalhar conjunto os dois mundos: dos pagamentos e das grandes empresas. Por um lado, criamos valor para empresas de pagamentos, uma vez que não somos concorrentes, nem lhe cobramos dinheiro. Por outro, facilitamos a chegada da sua tecnologia junto de grandes empresas.

Por um lado, criamos valor para empresas de pagamentos, uma vez que não somos concorrentes, nem lhe cobramos dinheiro. Por outro, facilitamos a chegada da sua tecnologia junto de grandes empresas.

Quais são os vossos mercados alvo?

OW – Os nossos clientes alvo são empresas multinacionais, por exemplo grandes seguradoras. Além de terem de fazer muitas integrações num determinado mercado, trabalham em 20 ou 30 mercados. Este contexto torna a integração a nível das TI mais complexa, incluindo a produção de relatórios.

Por seu lado, as empresas de pagamentos, que têm uma determinada tecnologia espetacular, esquecem-se das questões de integração e de como podem fazer chegar a sua tecnologia às grandes organizações. E é aqui que entramos, ao procurar tornar a vidas das grandes empresas mais fácil do ponto de vista da integração.

São uma gateway de pagamentos?

OW – Não, porque uma gateway de pagamentos agrega os pagamentos e disponibiliza-os aos clientes. O modelo de negócio assenta nos pagamentos, recebendo, por exemplo, uma percentagem sobre cada transação. Disponibilizam o que têm e os clientes estão limitados aos fornecedores de pagamentos selecionados pela gateway.

A Imburse é diferente. Não temos exclusividade com qualquer empresa de pagamento em particular. Nós resolvemos o problema de integração. Significa que se o cliente preferir trabalhar com este PSP neste mercado e com aquele PSP noutro, e utilizar aquela gateway apenas para uma funcionalidade, não há problema.

Tratamos não apenas da entrada de dinheiro, mas também da saída. Porque as grandes empresas, como as seguradoras, têm de recolher prémios ou fazer cobranças, mas também têm de pagar salários, faturas, movimentos de tesouraria, etc. Enfim, pagamentos que requerem diferentes tecnologias, incluindo cartões de crédito ou carteiras eletrónicas.

A Imburse procura simplificar tudo isto para as grandes empresas. Dispensa a integração nos sistemas core da empresa. As empresas apenas têm de nos dizer quanto precisam recolher em que mercados e quanto precisam de pagar em que mercados. E nós levamos-lhes a tecnologia que o pode fazer.

Depois o cliente pode optar pela solução adequada, com base nos seus requisitos: custo, fiabilidade, preferência dos segmentos de mercado-alvo.

Também somos apoiados pelas empresas de pagamentos, porque estas acabam por ganhar também. Como não lhes cobramos, não têm de partilhar receitas connosco, não lhes tiramos contratos. Pelo contrário fazê-mo-las chegar a grandes empresas, permitindo-lhes trabalhar de imediato e sem custos.

Desde modo, as empresas de pagamentos deixam de precisar esperar 15 meses para que, por exemplo, as seguradoras possam integrar as suas tecnologias. Os negócios acontecem mais rapidamente, após a implementação com a Imburse .

Não cobramos às empresas de pagamentos, queremos ajudar as grandes corporações a resolver a integração dos pagamentos. No fundo, os nossos clientes são as grandes corporações. As empresas de pagamentos são nossos parceiros. Criamos valor para ambos os lados.

Qual é o vosso modelo de negócio?

OW – Cobramos às corporações uma taxa de licenciamento, baseado em volume e não em custo por trasação. Vendemos eficiência junto dos CFO ou dos COO. O nosso nível de entrada é de 25 mil euros para 100 mil transações. Para a nossa plataforma não é relevante se as trasações são pagamentos ou recebimentos, se são vouchers ou carteiras electrónicas, se é um euro ou um milhão de euros. O relevante é o número de trasações.

Naturalmente, quanto maior for o volume da transação, mais baixo fica o custo por transação. Deste modo, os clientes têm a flexibilidade total para fazer pagamentos e para testar sem preocupações de que não funcione.

Na prática pode representar metade ou um terço do valor cobrado por um recurso de desenvolvimento de IT. Somos significativamente mais baratos e criamos eficiência. Estamos a libertar muito dinheiro que era enfiado num buraco negro de IT empresarial.

O nosso nível de entrada é de 25 mil euros para 100 mil transações.

Quais são os próximos passos da vossa estratégia?

OW – Somos uma empresa em crescimento. Temos trabalhado com seguradoras nos nossos principais mercados: Portugal, Espanha, Suíça, Alemanha e Reino Unido. É o caso da SwissRee da InsureandGo. Mas estamos a entrar noutros setores e a finalizar contratos com outras seguradoras e bancos.

As seguradoras estão sob uma grande pressão dos clientes (para disponibilizar melhores produtos e experiências) e dos shareholders (para aumentar a eficiência, reduzir custos, modernizar sistemas de TI) e estão muito abertos a comprar este tipo de tecnologia.

Mas temos também clientes na área da banca e estamos a crescer no mercado automóvel e transportes públicos. Temos negociações em curso, pois os problemas para chegar a todos os mercados de pagamentos destas empresas são muito semelhantes aos das seguradoras.

A rede de parceiros de canal está também em crescimento. Lidamos com muitas das grandes empresas. E uma das melhores maneiras de vender nessas empresas é indirectamente. Neste caso trabalhamos através de empresas como a DXC, a Microsoft ou a Google.

A que outros problemas pode a Imburse dar resposta?

OW – A tecnologia é vertical agnostic. A mesma tecnologia pode ser utilizada numa seguradora, numa fábrica ou em automóveis e até pelos próprios automóveis.

No futuro, a Imburse pode ser implementado num automóvel. Através da solução, a cobrança da manutenção ou das revisões pode ser feita através da Imburse, em qualquer país, facilitando todo o trabalho de tesouraria. Ou em soluções de carsharing: uma parte do dinheiro vai para o dono, outro para a plataforma, outra para a seguradora, e pode ser feito em vários países.

De facto, a visão de empresas como a BMW apontam para o automóvel como lifestyle. No futuro, não se comprará um automóvel, irá comprar-se uma experiência. Por determinado valor, poderá ter-se um carro à disposição em qualquer parte do mundo, na terra Natal ou em viagem. Imagine o cenário: um português chega aos EUA, pega no carro e tem de pôr gasolina. Com a nossa tecnologia as opções de pagamento tanto poderão ser norte-americanas como portuguesas. O condutor poderá pagar em dólares, com métodos de pagamento de Portugal. Estamos a olhar para este tipo de soluções.

OW – Como surgiu a Imburse ?

A Imburse foi oficialmente fundada na Suíça, em 19 de Fevereiro de 2018. Antes tínhamos uma aplicação de traceabilidade para os clientes de aviação/seguradoras, que permitiam pagar, em tempo real, as despesas relacionadas com atrasos dos aviões. No entanto, o processo era longo e os clientes ficavam insatisfeitos pois precisavam do dinheiro no momento, ainda no aeroporto. Caso contrário poderiam não precisar de todo.

Explicámos às seguradoras que seria necessário ter pagamentos em tempo real. Mas as seguradoras disseram-nos que não, porque iam precisar de 15 meses para arrancar, com custos internos de 500 mil dólares. E não o fizeram.

Foi então que desenvolvemos uma forma de fazer pagamentos em tempo real, sem tocar no sistema core de IT core. Criámos uma solução temporária de integração dos pagamentos e assim nasceu a Imburse.

Em 2016, apresentámos a solução às seguradoras que a preferiram à solução de traceabilidade. No final de 2017, desenvolvemos a nova ideia e registámos a empresa na Suíça.

Somos incrivelmente seguros, porque se atacarem os nossos sistemas não temos dados alguns.

Não estamos sob a alçada do regulador, porque o que fazemos é o empowerment da circulação do dinheiro. Não detemos dados dos clientes, nem dos dados de pagamento, nem mesmo o dinheiro passa por nós. Somos incrivelmente seguros, porque se atacarem os nossos sistemas não temos dados alguns. Nem sequer cifrados. Não estão lá. Se alguém tentasse entrar no nosso sistema, o PSP apenas o rejeitaria, porque não tem direitos de entrada. Somos uma excepção na Suíça e estamos a trabalhar para conseguir as mesmas exceções em Portugal, na Alemanha, no Reino Unido, em Espanha. Será mais fácil nestes países, porque já temos o exemplo da Suíça. 

Oliver Werneyer, CEO
Carl Strempel, CFO/COO
David Scott Turner, CTO
Mark Jerome, Co-founder and Head Developer