Entrevista

Hélder Rosalino – Administrador, Banco de Portugal

Banco de Portugal
Há um universo de novas oportunidades a explorar, e quem não o fizer corre o risco de ficar fora do mercado, onde também entram os gigantes tecnológicos, que se preparam para oferecer serviços financeiros no retalho, retirando uma fatia do negócio aos bancos e a outras entidades financeiras já instaladas. Os bancos terão que antecipar e prevenir estas ameaças.

Consumidores, relação com o setor bancário, supervisão, relação com Estado… para referir apenas algumas das muitas exigências ao papel do Banco de Portugal. Onde estão os maiores desafios?
São vários os desafios que se colocam no domínio dos pagamentos, muitos deles de caráter disruptivo, que obrigam o Banco de Portugal a uma atuação cada vez mais proactiva para dar cumprimento ao seu mandato de promoção do bom funcionamento dos sistemas de pagamento.
O primeiro dos grandes desafios é a participação no aprofundamento da integração dos sistemas de pagamentos europeus. Encontra-se em curso uma profunda renovação tecnológica das infraestruturas de pagamentos do Eurosistema, que suportam não só a União Económica e Monetária, como também a União dos Mercados de Capitais. Está em causa a evolução dos serviços TARGET, um projeto estruturante para a comunidade bancária europeia, que introduz alterações significativas na arquitetura operacional e tecnológica do sistema financeiro.

Encontra-se em curso uma profunda renovação tecnológica das infraestruturas de pagamentos do Eurosistema, que suportam não só a União Económica e Monetária, como também a União dos Mercados de Capitais

Em paralelo, desenvolve-se uma estratégia que incentiva a criação de uma solução de pagamentos de retalho verdadeiramente europeia, com alcance pan-europeu, com uma experiência de cliente harmonizada, com identidade e governação europeias, de aceitação global, eficiente em termos de custos e com garantias de segurança e proteção. E será baseada nos pagamentos imediatos conta a conta.
Ao nível nacional, temos a implementação da Estratégia Nacional para os Sistemas de Pagamentos que nos desafia a construir, em conjunto com todos os operadores, soluções de pagamento seguras, eficientes e inovadoras no mercado português, promovendo a sua acessibilidade generalizada. A Estratégia tem quatro pilares de desenvolvimento, que passam por promover uma sociedade mais informada, aproveitar potenciar os benefícios da transformação digital, contribuir para um enquadramento regulamentar que promova a inovação e a eficiência e, não menos importante, promover a adoção de soluções de pagamento cada vez mais seguras.
Por fim, temos os desafios mais relevantes e que resultam da aceleração digital que estamos a viver, sem precedente, e que nos está a conduzir rapidamente para um novo paradigma no setor dos pagamentos. Nesse contexto, o nosso grande desafio é estar próximo do mercado e ser um catalisador da inovação e melhoria do sistema de pagamentos nacional, em estreita cooperação com todos os operadores e sempre a pensar nos benefícios para o utilizador de sistemas de pagamento e na sua segurança.

Em relação aos meios de pagamento, podemos dizer que viveram no último ano uma verdadeira “revolução”. Os novos hábitos de consumo colocaram por exemplo os pagamentos por contactless entre os mais apreciados pelos consumidores. De que forma é que os bancos centrais estão a acompanhar esta transformação?
A pandemia foi, sem dúvida, um grande acelerador de futuros neste domínio, alterando de forma muito rápida os hábitos de pagamento dos consumidores. Mas esta tendência iniciou-se muito antes. Contribuíram para essa tendência, por um lado, a rápida inovação tecnológica e, por outro, a reformulação do enquadramento regulamentar para os serviços de pagamento. Com o objetivo de melhor acompanhar estes desenvolvimentos, os reguladores têm procurado, por um lado, ter uma atitude mais aberta e próxima dos inovadores e, por outro, dotar-se de ferramentas que permitam uma avaliação e mitigação adequada dos riscos decorrentes das novas tecnologias. Nessa linha, o Banco de Portugal tem estado cada vez mais perto da inovação tecnológica. Um exemplo recente desta abordagem é a participação no Portugal FinLab, uma plataforma que promoveu o diálogo direto e interativo dos inovadores com as três autoridades de supervisão. A reação do mercado a esta iniciativa foi extremamente positiva. O conhecimento apreendido pelas 3 autoridades e pelo mercado nesta “experiência” ultrapassou as nossas melhores expectativas.

O enquadramento legal europeu é um facilitador ou há situações em que dificulta a “agilidade” do Banco de Portugal?
As soluções de pagamentos de hoje não podem ter fronteiras internas no mercado europeu. Os utilizadores devem conseguir pagar em qualquer Estado-Membro da União Europeia com a mesma facilidade com que pagam em Portugal (e vice-versa). Tal só será possível se as soluções nacionais forem interoperáveis a nível pan-europeu.
Nesse sentido, o enquadramento europeu só pode ser um facilitador do papel de todos os agentes do ecossistema de pagamentos, incluindo do Banco de Portugal.

Os efeitos conjugados da inovação tecnológica com a DSP2 ainda não estão completamente concretizados no mercado português.

Saliento, em especial, o papel da Diretiva de Serviços de Pagamento revista (DSP2), que veio contribuir para um mercado de pagamentos europeu mais inovador, competitivo, integrado e eficiente e, simultaneamente, mais seguro. A DSP2 introduziu um conjunto de alterações significativas na prestação de serviços de pagamento em Portugal. A criação e regulação de novos tipos de serviços de pagamento (os serviços de iniciação de pagamentos e de informação sobre contas), cuja prestação assenta na existência de um open banking, e a definição de um conjunto de requisitos de segurança a respeitar na execução de operações de pagamento são das mais relevantes.
Os efeitos conjugados da inovação tecnológica com a DSP2 ainda não estão completamente concretizados no mercado português. Mas levar-nos-ão, sem dúvida, para um mercado de pagamentos ainda mais digital e multifacetado.
A existência de um enquadramento regulamentar europeu comum só pode ser benéfico para todos, sem qualquer dúvida.

Na sua opinião de que forma vai evoluir o papel dos bancos centrais, quando falamos por exemplo, do euro-digital?
O euro digital, se vier a ser lançado, será uma moeda digital de banco central que poderá ser disponibilizada ao público em geral (incluindo particulares e empresas) para utilização nos pagamentos de retalho. Consistirá numa outra forma de disponibilizar euros, que visa complementar, ao invés de substituir, o numerário e os depósitos junto do banco central. Será um meio de pagamento digital simples, sem risco e confiável. Tal como as outras duas formas de moeda, o euro digital será um passivo dos bancos centrais da área do euro. Na prática, o euro digital será uma forma de os cidadãos europeus terem acesso a moeda de banco central (logo, sem risco) no contexto de um ecossistema de pagamentos digitalizado.

O euro digital será desenhado para que não exista fuga de depósitos dos bancos comerciais para depósitos junto do Banco Central

Não é objetivo do BCE que o euro digital faça o crowding out a soluções de pagamento pan-europeias privadas. Pelo contrário, o euro digital deverá coexistir com essas soluções de pagamento. Para além disso, o BCE não pretende que exista desintermediação financeira, ou seja, o euro digital será desenhado para que não exista fuga de depósitos dos bancos comerciais para depósitos junto do Banco Central. Também não será objetivo do BCE substituir-se ao mercado na experiência que este tem na relação com o utilizador final. Por isso mesmo, a emissão de euro digital deverá ser intermediada por instituições supervisionadas, as quais deverão ser responsáveis por prestar serviços de autenticação, Know-Your-Costumer, fornecimento de dispositivos de pagamento, entre outros.
Por tudo isto, não será de esperar profundas transformações no funcionamento do sistema financeiro e, por maioria de razão, do próprio papel dos bancos centrais.

O sistema financeiro em Portugal, está preparado para esta transformação dos próprios modelos de negócio? O que é prioritário para responder de forma eficiente e robusta ao futuro do sistema financeiro?
O sistema financeiro tem vários desafios pela frente. Desde logo, o desafio que resulta da crise que ainda estamos a viver, com tudo o que a mesma veio implicar em termos económicos e financeiros.
Olhando, porém, para o que mais pode impactar os modelos de negócios dos bancos, identifico quatro tendências que estarão no centro das preocupações e nos processos de transformação do sistema financeiro nos próximos anos.
A primeira é o “Open Banking”, que obrigará os bancos a partilhar os dados dos seus clientes com entidades devidamente autorizadas, tornando as contas bancárias uma espécie de “matéria-prima” acessível a qualquer operador, sobre a qual poderão ser desenvolvidos diversos serviços inovadores. Há um universo de novas oportunidades a explorar, e quem não o fizer corre o risco de ficar fora do mercado, onde também entram os gigantes tecnológicos, que se preparam para oferecer serviços financeiros no retalho, retirando uma fatia do negócio aos bancos e a outras entidades financeiras já instaladas. Os bancos terão que antecipar e prevenir estas ameaças.

As instituições que não tirem partido da Inteligência Artificial na sua cadeia de valor desperdiçarão importantes oportunidades de transformação, correndo o risco de perder competitividade e mercado

Outra tendência que se adivinha é a crescente utilização da Inteligência Artificial. Esta tecnologia é já hoje amplamente utilizada pelo sistema financeiro, por exemplo na monitorização de operações de pagamento para deteção de fraudes e de tentativas de branqueamento de capitais e de financiamento ao terrorismo. É também já usada na análise preditiva para apoiar a personalização de investimentos, no atendimento ao cliente através da robotização e no reforço da segurança digital. As instituições que não tirem partido da Inteligência Artificial na sua cadeia de valor desperdiçarão importantes oportunidades de transformação, correndo o risco de perder competitividade e mercado.
A terceira tendência passa pela utilização crescente de Big Data e de ferramentas de Analytics. Com o advento do Open Banking e da Internet-of-Things, os diversos prestadores de serviços financeiros, e não só, poderão ter acesso a um amplo conjunto de dados dos clientes, combinando informação financeira e pessoal. No futuro, customização será a palavra-chave para diferenciar serviço e fidelizar clientes.
A quarta tendência centra-se numa maior aposta em Plataformas Tecnológicas mais integráveis. Os prestadores de serviços financeiros incumbentes ainda possuem infraestruturas tecnológicas baseadas em sistemas centrais, pesados, lentos e pouco responsivos ao ritmo da inovação (os chamados legacy systems). Com um ecossistema em crescente exigência e complexidade, uma evolução para plataformas mais ágeis, distribuídas, escaláveis e integráveis é essencial para responder aos desafios atuais e futuros dos bancos (de que os sistemas em cloud são exemplo). As fintech terão aqui um papel fundamental a desempenhar. São já muitas as instituições financeiras que estão a criar plataformas de cocriação e colaboração com startups financeiras, incorporando, de forma colaborativa, inovação e diferenciação nos seus modelos de negócio.