Banca

“As futuras gerações podem até nem saber o que é um banco na sua definição mais tradicional”

“As futuras gerações podem até nem saber o que é um banco na sua definição mais tradicional”
Os bancos que optem pela colaboração com as fintechs, pelo OpenX e se transformem em ‘Inventive Banks’ serão os que terão mais hipóteses de serem bem-sucedidos. As conclusões são do World FinTech Report 2020 , da Capgemini e da EFMA, e foram o mote para uma conversa com Luís Batista, responsável pela prática de Application Management Services da Capgemini.

O mais recente World FinTech Report da Capgemini e da EFMA revela que apesar do crescente afastamento entre os bancos tradicionais e as bigtechs e os novos players do sector dos serviços financeiros, os bancos tradicionais poderão singrar no mercado atual se adotarem o modelo OpenX e se forem capazes de se converter em ‘Inventive Banks’. Em entrevista ao SmartPayments News, Luís Batista, da Capgemini, conta como vê o futuro da banca e revela como esta pode competir com as bigtechs e os novos players do mercado financeiro.

Ainda é possível para um banco ‘tradicional’ vingar no mercado atual?
Acredito que, se não for uma impossibilidade, será com certeza muito difícil de conseguir e implicaria uma alteração substantiva na atual realidade de mercado e social.

Vejamos que o negócio bancário tradicional, entenda-se em particular o negócio de retalho, depende quase exclusivamente da capacidade de atrair, fidelizar e incrementar a carteira de produtos e clientes.

Ora, não é difícil aferir que nos últimos 10 anos, para não recuar demasiado, os hábitos de consumo dos produtos e serviços financeiros sofreram uma significativa alteração por via da indução de tecnologia aos processos, o que me leva a crer – opinião partilhada por muitos – que ainda estamos nos estágios iniciais de uma ‘revolução tecnológica’ no setor que conduzirá a novos hábitos e novas práticas de consumo. Tendo por base de partida este raciocínio, o que hoje entendemos por disruptivo, será amanhã tradicional.O que hoje é tradicional… pode amanhã não existir.

A oferta disponibilizada pelos bancos tradicionais está alinhada com as expetativas dos clientes? Em que devem apostar para ir ao encontro das expectativas?
Sim, está, e vai estar ainda mais. Sem entrar em grandes considerações, esta minha observação resulta da interpretação que advém do próprio mercado e da realidade dos próprios clientes.

“As fintechs, além de uma capacidade de aportar soluções inovadoras, têm no seu ADN uma preocupação elevada com a experiência do cliente”

Se focar as considerações – para melhor exemplificar – no universo de clientes particulares, vemos que as gerações que estão nesta nova década a iniciar a sua atividade e por consequência o seu relacionamento mais próximo com o setor bancário, privilegiam muito mais o ‘usar’ em detrimento do ‘ter’: ter uma conta poupança vs usar uma plataforma de investimento, ter uma casa vs usar uma habitação, ter um carro vs usar um meio de transporte alternativo. Neste sentido, com a mudança de necessidades por parte dos clientes, é fundamental que os bancos adequem a sua oferta com produtos e serviços mais próximos dos clientes e das suas expetativas.

Quais as principais vantagens das bigtech e dos novos players do mercado financeiro em relação à banca tradicional?
São várias, mas destaco três. Uma forte capacidade tecnológica e de inovação  que lhes permite a colocação de soluções disruptivas no mercado com grande rapidez e agilidade. Uma capacidade financeira elevada para suportar o investimento necessário. De recordar que as soluções mais inovadoras podem levar vários anos até produzirem efeitos de retorno financeiro. E por fim, mas talvez a de maior relevância, o facto de não estarem ‘amarradas’ pela regulação do setor, que embora necessária para a manutenção da confiança no setor tem também o efeito perverso de limitar os bancos no seu espectro de atuação e na sua capacidade de investimento.

Quando os consumidores referem preferir as fintechs à banca tradicional quais os motivos apontados?
É sobretudo pela experiência. As fintechs, além de uma capacidade de aportar soluções inovadoras, têm no seu ADN uma preocupação elevada com a experiência do cliente, procurando proporcionar soluções adequadas no momento certo para suprir uma qualquer necessidade imediata. Algo que os bancos, embora com significativos avanços nos últimos anos, ainda procuram atingir.

No vosso mais recente Fintech Report falam também do conceito Inventive Bank. O que é um Inventive Bank?
O conceito de Inventive Bank deriva do estado de evolução e maturidade que um banco pode atingir na evolução dos seus serviços e posicionamento de mercado. No presente o desafio da inovação e dos novos modelos de interação num mercado mais aberto, não só com clientes, mas com todo o ecossistema financeiro (parceiros, fintechs, reguladores, outros bancos, etc.) leva a que os bancos tenham de atuar não só como exclusivos produtores e distribuidores dos seus produtos e serviços, mas antes num sentido mais alargado onde são integradores e orquestradores de um leque de produtos e serviços, próprios ou de outros parceiros, num ecossistema aberto (OpenBanking).

“O maior desafio é conseguir que o conhecimento criado em Portugal se mantenha no nosso País, já que sofremos de um problema de dimensão reduzida de mercado e um enquadramento fiscal desfavorável”

O vosso estudo diz que 48% dos clientes da Geração Y estão desapontados com a oferta limitada de produtos e serviços oferecidos pelo seu banco tradicional. O que procura esta geração do seu banco? Quais as expetativas?
De uma forma geral todos os clientes, mas em particular os de Geração Y, são hoje em dia pessoas conectadas, com um estilo de vida assente em plataformas digitais, sejam elas de interação social ou profissional. Deste modo, o que esperam é que a experiência com o seu banco seja uma extensão deste mesmo estilo de vida, com a disponibilização de serviços personalizados, em real-time, em qualquer lugar, a qualquer hora, com uma experiência dinâmica, intuitiva e apelativa, ao invés das típicas experiências transacionais que a banca tradicional oferece.

As futuras gerações vão saber o que é ir ao um banco?
Se o conceito de “ir a um banco” for entendido como a deslocação física a uma dependência bancária, claramente não. Atrevo-me a ir mais longe. As futuras gerações podem até nem saber o que é um banco na sua definição mais tradicional.

De que forma é que os bancos tradicionais e as fintechs podem colaborar?
Na minha opinião a fórmula é muito simples. As fintechs devem alavancar nos bancos a experiência, o estabelecimento de mercado existente e o suporte de produto e organizacional. Estou a referir-me neste último ponto a toda a capacidade humana, processual, transacional e financeira que os bancos detêm. Por outro lado, os bancos devem procurar nas fintechs as soluções e serviços que lhes permitam a colocação dos seus produtos e serviços em formas e canais inovadores, a otimização, desmaterialização e automatização dos processos e, fundamentalmente, atingir por via das soluções tecnológicas inovadoras, que as fintech aportam, incrementos de quota de mercado reduzindo os custos de investimento para o atingir.

O Governo publicou no mês passado a regulamentação para a criação de Zonas Livres Tecnológicas. Esta é uma boa notícia para as fintechs? Que oportunidades podem ser criadas para estas empresas com esta nova regulação?
Os princípios gerais de regulamentação da Zonas Livres Tecnológicas (ZLT) fazem parte do Plano de Ação para a Transição Digital do Governo, o qual em suma visa estabelecer um conjunto de iniciativas no sentido de intensificar o desenvolvimento estratégico digital no nosso País.

De um modo geral é claramente benéfico para as fintechs e startups tecnológicas portuguesas que exista um enquadramento público para o desenvolvimento de soluções, seja não só pela disponibilização de verbas a título de investimento, mas também pela disponibilidade de plataformas onde o conhecimento e o desenvolvimento tecnológico possa ocorrer de um modo sustentado.

“O meu melhor palpite é que em dez anos os bancos deixem de ser bancos para serem eles próprios as BigFinTechs”

Portugal é já hoje um País com tradição na criação e lançamento de startups, fruto dos investimentos feitos no passado na criação de infraestruturas tecnológicas e capacidades de conhecimento. O Governo, as instituições de ensino, as empresas públicas e privadas e os diversos organismos de apoio ao desenvolvimento do País desempenham um papel fundamental na criação e manutenção deste ambiente de tecnológico do País, todavia, o maior desafio é conseguir que este conhecimento criado em Portugal se mantenha no nosso País, já que sofremos de um problema de dimensão reduzida de mercado e um enquadramento fiscal desfavorável.

De que forma tecnologias como a automação, a realidade aumentada e a inteligência artificial podem criar valor para os serviços financeiros?
São diversos os exemplos de como estas tecnologias podem criar valor, mas gostaria de destacar aquele que me parece aportar, em particular na realidade do setor em Portugal, significativos impactos positivos para os bancos e para os clientes: Inteligent Automation, um conceito que descreve uma solução holística de evolução digital assente numa combinação de soluções como Business Process Managemet (BPM), Robotic Processs Automation (RPA), Data Analitycs e Artificial Intelligence, que aplicada à camada de processos, permite aos bancos um incremento significativo de produtividade e em paralelo melhorar a experiência do cliente por via da rapidez e customização que se consegue obter.

Como imagina a banca daqui a dez anos?
É difícil antever o futuro num cenário de evolução tecnológica exponencial. O meu melhor palpite é que em dez anos os bancos deixem de ser bancos para serem eles próprios as BigFinTechs.